Roberto Rodrigues de Menezes.

Roberto Rodrigues de Menezes



sábado, 6 de agosto de 2011

Gargântua e Pantagruel, de François Rabelais.

Meus caros leitores: Vocês já ouviram o vocábulo pantagruélico? Existe, sim, e significa comilão, guloso, exagerado, disforme. E provém de Pantagruel, um dos personagens de um conto meio amalucado do monge francês François Rabelais (1494-1553), homem erudito e amante da boa vida. Ele resolveu satirizar os costumes da época, numa Europa cheia de superstições e obscurantismo, colocando-os em ridículo, e ficou famoso com a sua obra. Tanto que está saindo no meu bloguinho.
Gargântua nasceu príncipe herdeiro do reino da Utopia (ah, essas utopias como são recorrentes desde a idade média) e seu pai se chamava Goelagrande, um galhardo gigante comilão. Sua mãe, uma mulherona das grandes, atendia pelo nome de Gargamela. Mal nasceu, Gargântua gritou: Quero comer, quero beber. Ele tomava leite in natura, ordenhando as pobres vacas.
Gargânta cresceu e se tornou um peso para os pais. E que peso! Ele somente comia, bebia e fora educado como um filho de rei. Por isso ele resolveu ir para a capital Paris, montado num gigantesco jumento, que derrubava árvores com a cauda.
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Aqui, conspícuos leitores, faço uma breve interrupção nesta historia para lhes afirmar que as crianças e jovens herdeiros das monarquias do mundo, na idade média, não podiam levar qualquer sova ou tunda, pois seriam reis futuramente. Por isso cada herdeiro, em cada castelo, convivia com um pajem plebeu que fazia sempre o papel de Judas em sábado de aleluia. O herdeiro real aprontava, o pajem levava no lombo, nas ventas e no traseiro as varas dos preceptores. Este costume ancestral ainda vigora hoje, nestes tempos modernos, se bem que de forma um tantinho diferente.
As crianças e jovenzinhos desta era, igualados nobres ou plebeus, não podem apanhar nem palmadinhas, de acordo com os sofisticados cânones.  Por isso quem agora leva no lombo, nas ventas e no traseiro são os papais, os avós e as babás.
O mesmo acontece na política, pois se os adeptos do partido hegemônico aprontam, quem acaba levando no lombo, nas ventas e no traseiro é a base aliada, sob os cuidadosos auspícios da Polícia Federal.
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Chegando em Paris, a primeira coisa que o príncipe Gargântua fez foi subir na catedral de Notre Dame e furtar os sinos, pendurando-os como guizos no pescoço de sua montaria.
Mas Gargântua teve que voltar às pressas para o reinado de seu pai. O povo vizinho, do rei Picrocolo, roubara de Utopia todos os bolos e por isso houve guerra. Gargântua chegou ao castelo do rei inimigo e, com uma árvore à maneira de clave,  arrebentou com tudo. Tentaram atacá-lo com balas de canhão, mas ele gritava: Por que me atirais bagos de uva?...
Vencida a guerra, Gargântua premiou os amigos e perdoou os inimigos e tudo ficou como dantes, exceto o castelo. O abade Frei João quis lhe dar uma abadia suntuosa, rica de jardins, onde o único regulamento seria: Faça o que quiser.
Um belo dia nosso herói resolveu casar. E escolheu a nobre Bocaberta, que não tardou a lhe dar um filho, que se chamou Pantagruel. Este nasceu já com pelos e com a mesma fome do pai, sendo os augúrios positivos no sentido de que ele teria vida longa. Ele foi acorrentado ao berço, porque só andava atrás de comida. Mas não adiantou, pois passou a caminhar com a caminha nas costas. E não queria leite, mas vinho.
Pantagruel cresceu e, como o pai, foi para Paris. Lá encontrou um fulano que ficou seu amigo, um tal de Panurgo, que fugira dos turcos, que queriam comê-lo assado. Não era um gigante como Pantagruel, mas o que lhe faltava em altura lhe sobrava em esperteza. Com esta preciosa ajuda, Pantagruel venceu os inimigos chamados Dipsodos e se sagrou rei.
Panurgo aconselhou que o rei Pantagruel punisse o rei dos Dipsodos, e o obrigou a casar com uma mulher colérica. Além disso, vestiu-o de maneira grotesca e o obrigou a vender coisas, como ambulante.
Um dia Panurgo quis também casar. Aconselhou-se com o rei Pantagruel e com o frei João. Consultou também médicos, filósofos e literatos. Ninguém decidiu coisa alguma; por isso resolveram pedir conselho à Divina Garrafa, que se encontrava além-mar. Navegaram até o mar glacial, quando viram voando muitos brinquedos coloridos. Agarrando-os, qual não foi a surpresa ao verem que se transformavam em bolinhas que se desfaziam nas mãos, como bolhas. E dali saíam sons e palavras bárbaras que nunca tinham sido ouvidas. Elas, em razão do frio, haviam congelado.

Chegaram finalmente à presença da Divina Garrafa, uma fonte em que jorrava vinho, e lhe perguntaram se Panurgo devia ou não casar. Um oráculo somente lhes disse: Bebam!...
 Eles todos esqueceram o motivo que os trouxera ali e se embebedaram até cair. E quanto ao casamento, nem pensaram mais nisso.
O final do conto é meio abobado, mas tem o seu motivo. Não há monarquia nem guerra que substitua um bom copo de vinho.
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Enciclopédia Trópico, volume VIII.
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