Roberto Rodrigues de Menezes.

Roberto Rodrigues de Menezes



domingo, 7 de novembro de 2010

O anel dos Nibelungos (lenda nórdica).

Um vulto sorrateiro se aproxima das margens do rio Reno e, com enorme agilidade, mergulha nas águas profundas até alcançar grandes blocos de puro ouro, tesouro dos deuses do norte da Europa. É Alberico, o rei dos nibelungos, povo sombrio de baixa estatura que vive nas entranhas da terra.*************************
Richard Wagner, compositor alemão de óperas e músicas eruditas (1813-1883), fez grande sucesso ao transportar esta história encantada para uma ópera.
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Há muitos e muitos anos espessos bosques cobriam as montanhas e vales das terras nórdicas. Esta história poderia ter acontecido em qualquer região do norte europeu. O rio Reno, o mais importante da Europa, corria tranquilo no seu curso vindo dos Alpes, coberto por vegetação densa e intocada, entre vales férteis e verdes colinas. Os fiordes, ainda mais ao norte, formavam paisagens de sonho, quando a terra quase vertical parece se precipitar para um rio ou lago que descansa gelado e plácido nos fundos dos vales, formando miríficas paisagens.
Nos céus habitava Votã, o maior dos deuses, talvez aparentado do grego Zeus, com a sua esposa Frica, que ao leitor atento faz as vezes de Hera. A deusa da mocidade Fréia, qual Hebe, distribuía eterna juventude. Loge era o senhor do fogo e dos clarões da madrugada.
O grande Votã tinha um sem número de filhas que se chamavam Valquírias, belas jovens guerreiras encarregadas de levar para os céus as almas do heróis terrenos mortos em combates. Nas montanhas nevadas de grandes abetos moravam os gigantes. Nas planícies e florestas, ao longo do curso dos rios, em vales de luxuriante beleza, moravam os homens.
Mais abaixo, nas profundezas da terra, nas sombras enganadoras e esguias, viviam seres disformes e pequenos, dados a trabalhar os metais nas minas, que os homens temiam e procuravam evitar. Eram os nibelungos.
Nas águas claras e profundas dos rios moravam as ondinas, as nórdicas sereias, que guardavam os tesouros dos deuses no fundo de seus leitos. No rio Reno, numa de suas curvas, em pequena gruta submersa, estas jovens custodiavam um magnífico tesouro composto por blocos de ouro de puro quilate, que povos dos fiordes haviam presenteado aos deuses.
Alberico conhecia a sua exata localização, e num dia em que as ondinas atenuam o rigor de sua guarda, mergulha várias vezes e leva consigo os blocos sagrados. É tarde quando elas percebem o furto. Desesperam-se, não saberão o que dizer ao senhor dos deuses, mas Alberico já desaparecera nas sombras.
O ouro roubado continha mágicos poderes. O rei nibelungo manda forjar para si um anel e um elmo dourados. Sobram-lhe ainda algumas pedras do precioso metal.
Votã, porém, está atento. Seu poder é maior que a cobiça do nibelungo. Arrebata para si todo o tesouro, nada podendo fazer o anão. Alberico, imerso no mais profundo ódio, submete-se à derrota, mas planeja vingança.
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Os deuses tinham resolvido construir um castelo encantado nos cumes nevados das montanhas, que quando dourava o sol, apresentavam cintilações esplendorosas. Dois gigantes, Fasolt e Fafner, mágicos pedreiros, foram os encarregados da construção.
Terminado o trabalho depois de alguns anos, o "Walhala" mais parecia um magnífico palácio de cristal. Como os deuses tinham prometido aos dois gigantes lhes conceder o que quisessem, estes lhes pediram Freía, a bela jovem guardiã da eterna mocidade. Arrependeram-se os imortais de sua prodigalidade, e concordaram que os dois levassem o anel, o elmo e os blocos de ouro, em troca da liberdade da jovem.
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Os gigantes Fasolt e Fafner aceitam a troca.*************************
Os dois gigantes retornam ao vale em que moravam com o valioso prêmio, mas os deuses já tinha feito a cobiça, qual veneno mortal, se apossar de seus corações. Desentendem-se quando da partilha e começam uma luta que só terminará com um deles morto.
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Fafner, com sua clava, desfere em Fasolt o golpe mortal. Este cai abatido e seu sangue umedece a terra. Os deuses, que de longe observavam, transformam o gigante vencedor em um dragão e o fazem habitar uma gruta com os objetos de ouro, que deverá guardar, até que um valoroso guerreiro os retome.
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É noite de tempestade. Os trovões se atiram raivosos sobre a terra e a chuva cai com intensidade. Sigismundo, um jovem guerreiro, todo molhado e com frio, bate à porta de uma casa na floresta. Sabe que ali habitam inimigos de sua família, mas não há o que escolher. Se permanecer sem abrigo poderá morrer gelado. Hundings, o chefe da casa, recebe o jovem com a obrigação da hospitalidade, apesar de reconhecê-lo, mas avisa que ao amanhecer ele terá que partir, pois deverá persegui-lo com seus homens.
Na sala sombria em que Sigismundo sozinho se aquece aparece um vulto, depois que Hundings saíra. É Sigislinda, a bela esposa do hospedeiro. Ela, que tudo ouvira, compadece-se da sorte do jovem. Não amava Hundings, com quem casara por imposição. Ela aponta para um tronco onde está cravada uma espada.
O homem a arranca e, depois de descansar e se refazer na companhia dela, resolve fugir. Ela, que começara a amar o jovem desde que o vira, depois de um longo beijo, foge com ele.
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O dia amanhece e Hundings, possesso pela ira, arma seus vassalos e corre atrás do hóspede ingrato e da mulher traidora. Sabe que os deuses nunca aprovariam a fuga dos amantes.
No alto do "Walhala" estes a tudo observam. Brunilda, uma das Valquírias, que amava o guerreiro e com ele já se encontrara nas florestas, tenta descer em seu cavalo alado para ajudá-lo, mas o pai Votã a impede.
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Os dois inimigos finalmente se encontram e cruzam suas espadas. Sigismundo, o violador do lar doméstico, já tivera a sua sorte selada pelos deuses, apesar de portar a espada de Votã, que arrancara do tronco.
A sorte das armas parece, mesmo assim, pender para o lado do jovem. Hundings a custo apara os golpes da espada mágica. Votã desce então dos ceús no seu cavalo prateado e apara os golpes do jovem, que tem a espada quebrada em vários pedaços. O destino se inclina em favor do marido traído e Sigismundo é mortalmente ferido. Brunilda, que desobedecera Votã e vierá à terra, assiste a tudo desesperada. Sabe que o pai a castigará.
O deus se mostra implacável e tira os poderes da valquíria. Ela adormece numa colina, recostada em seu elmo, fugindo seu cavalo para os bosques sombrios. Somente poderá acordar se for despertada pelo mais valente e corajoso guerreiro da estirpe dos homens.
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Aqui, caros leitores, termina a parte primeira desta lenda. Amanhã aqui estaremos com o segundo e último ato.
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Esta história é um resumo de documentário do Tomo V da Enciclopédia Trópico, da Livraria Martins Editora S/A, que não mais foi editada. Infelizmente não mais, assevero, pois os dez volumes trazem em si clássicos magníficos das mais diversas culturas, literatura, música, artes, mitos e lendas, história da civilização e outros maravilhosos temas. Sobram ainda alguns volumes esparsos para venda em sites e sebos. As gravuras também fazem parte da Enciclopédia.
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